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ESCOLA E CIDADANIA

Waldeci Ferreira Chagas
(Professor Na Universidade Estadual da Paraíba -uepb0

Desde a antiguidade a escola foi concebida como formadora de sujeitos sociais, cidadãos/ãs. Quando entrei na escola foi para ser gente; assim disse minha mãe, no mesmo instante perguntei se eu não era gente. Ela respondeu: “não, gente é quem tem profissão, sabe entrar e sair dos lugares sabe falar, decidir seu próprio destino resolver sua vida”. Minha mãe acreditava numa escola cidadã. Naquele ano, 1972 prevalecia entre as classes pobres a ideia da escola como redentora; aquela que iria salvar os pobres, possibilitar a ascensão social, garantir aos meninos e meninas uma vida melhor do que a que se viviam nas periferias urbanas e rurais do Brasil. Como diziam os idosos na época à escola garantiria “um futuro”. Qual seria o futuro? A escola não respondia. Eu acreditei nisso e me agarrei à escola como quem se agarra a uma tabua de salvação. Todos os dias eu ia à escola com a certeza de que dias melhores estavam por vir ou já estavam advindos, eu só não os enxergavam. Eu pensava os resultados que a escola proporcionaria fossem rápidos, mas não foi. Terminava ano e começava ano e a minha condição social e econômica, assim como dos meninos e meninas com quem brincava permanência a mesma. Mesmo assim continuava acreditando. Depois de muito esperar por dias melhores, minha mãe me disse que esse dia seria o futuro. O tempo presente ainda seria de muita dureza e pobreza, mas tínhamos que agir e preparar o futuro; que demoraria ela não sabia quanto tempo, ela só sabia que ele haveria de vir. Na verdade o futuro de que falava a minha mãe e que eu tanto esperava estava sendo construído; futuro e presente caminham juntos estão imbricados como parte do mesmo processo. Alias minha mãe sabia qual seria o futuro, porque ela estava semeando-o no tempo presente. Só colhe algo no futuro quem no presente semeia quem vive o tempo presente intensamente. Se cuidarmos bem do chão da escola que pisamos e das pessoas que conosco o pisam, o futuro está garantido. O futuro não está numa caixa a ser aberta, e desvendada, mas na ação vivida permanentemente. Minha mãe, assim como tantas outras mães do Brasil dos anos 1970, residente nas periferias da pequena, média e grande cidade sabia do futuro que seus filhos poderiam viver. Olhavam seus passados e viam no presente dos seus filhos o que outrora foram. O futuro a que elas alcançaram não era diferente do que fora o passado. O presente repetia o passado. Elas temiam o mesmo acontecesse com seus filhos e filhas. Para muitos meninos e meninas do BRASIL dos anos 1970 o futuro repetiria o passado. Nem todas assim como seus pais ingressaram na escola, nem todas as famílias tiveram condições de semearem no tempo presente, portanto, entre dias e dias nada esperavam da vida. Nesse tempo a escola pública ainda não era para todos/as. As necessidades das famílias eram urgentes e não havia como esperar. O futuro exige espera, mas só espera para colher aquele que semeia. Naqueles anos 1970 o Estado brasileiro não semeava o futuro de que os pais das crianças tanto almejavam. As necessidades eram urgentes, mas as mães melhor que os governantes da época sabiam que seus filhos mereciam muito mais do que pão e leite. Vivia-se um presente difícil à espera de um futuro melhor, que estava ou não se construindo dia a dia. Restavam-nos viver o presente. Todavia a esperança que as mães falavam aos seus filhos/as, não era uma esperança imóvel, passiva, era ativa e permanente. Era uma esperança temporalmente vivida certa de que algo estava sendo construído. Só não havia certeza, mas em meio à incerteza, a esperança alimentava a ação no tempo presente. Era preciso viver e não querer entender a vida, ter paciência, o que não queria dizer ser passivo, mas viver os desdobramentos das ações empreendidas no tempo presente e ser feliz. A felicidade concebida como estado permanente de vida, e ação. As mães diziam que havia tempo para tudo. A vida ainda continua a dizer isso, mas diferente de outrora, hoje as crianças não vivem a espera do futuro; o futuro chegou rápido e as crianças nem perceberam e nem o desfruta. Elas vivem sem que algo tenha sido semeado, por isso, quando jovens não há o que colher. O futuro é o aqui e agora. Hoje não há o que esperar e as crianças não vão à escola para serem gente, cidadãs, elas já nascem gente e cidadãs; a escola que outrora não era para todos/as se massificou, mas nem todos/as que a frequenta conseguem ler e escrever mundos, muitos nem permanecem nela. Assim a escola que é para todos/as não se faz cidadã, uma vez que exclui os/as cidadãos/as que a procura.
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