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Acabou o carnaval?



Uma Semana atrás se encerrava o carnaval, com a quarta-feira de cinzas, e muitos podem se perguntar se minha pergunta não é despropositada.
Na verdade, é. E não é.
O carnaval, uma das maiores festas brasileiras se finda na quarta-feira de cinzas. É verdade! Mas, e o carnaval que tem se tornado as eleições em nosso país? Ele apenas está começando.
Um modelo político que historicamente tem favorecido os ricos em detrimento dos pobres, esse modelo tem-se mostrado ineficaz à verdadeira representatividade do povo brasileiro em suas instancias de decisão e poder. Consegue transformar democracia em qualquer coisa que seja, mas que não seja popular, como se esperaria de uma idéia que comece com “demos”.
Basta conversar com os amigos pra saber como é a realidade de eleições municipais. Principalmente aquelas do interior.
E aí, quando comparamos as histórias dos municípios, parece que há um “padrão” que se repete. Seria válido para todos as eleições municipais?
Foi pensando nisso que me pergunto, se não seria possível classificarmos os grupos políticos (que envolvem os Partidos Políticos e podem envolver também pessoas “independentes”, mas com forte afinação partidária) em “blocos carnavalescos eleitorais”. Quatro blocos básicos, que com pequenos ajustes talvez desse pra aplicarmos a diversos municípios de nosso país, foi o que de maneira simplificada e divertida consegui identificar como padrões nessas eleições municipais.
Faça um teste, após ler esse artigo, e veja em qual bloco se enquadram os candidatos de seu município:

Bloco “Farinha do mesmo saco”
Definição:
É um dos dois maiores grupos políticos do município. Tem a particularidade de estar atualmente no comando do poder executivo do município e possui seus tentáculos também na câmara municipal, costumeiramente tendo a maioria da casa.
Esse grupo é situação hoje. Mas, já foi oposição anteriormente. Nesse jogo de situação\oposição está sempre fazendo parelha com o bloco dos “Seis por meia-dúzia”.
Como situação, ou seja, como gestores destaca-se por uma administração desastrosa e pouco transparente, com uma particularidade, a qualidade dos serviços públicos oferecidos diminuem à medida em que os foliões desse bloco enriquecem. Curioso, não?
Foliões:
São compostos majoritariamente pelo primeiro escalão da gestão (atuais prefeito, vice-prefeito, assessores, secretariado...), vereadores da situação, políticos “profissionais” e empresários e coronéis de algum prestígio naquele município. Reúnem de fato famílias mais ricas ou em ascensão naqueles municípios, que juntas formam pequenas oligarquias que sugam o aparelho estatal desses municípios (cabide de emprego, favorecimentos, privilégios, etc).
A cada nova eleição eles costumam reunir-se para discutir se precisam mudar os seus candidatos, ou não.
Normalmente o escolhido entre eles é uma pessoa carismática que deverá representar a “cara desta administração”. Quando o jeito de fazer política do bloco começa ficar inescondível, para tentar limpar a sua imagem, trocam de escolhido. (Por exemplo: imaginem um prefeito cuja administração esteja envolvida em condenações por corrupção, desvio de dinheiro, etc –veja qual se aplica. Não é raro que ele já tenha sido condenado em alguma instancia da justiça. E que não consiga manter as melhores condições para os serviços públicos ofertados. Então, a população daquele município acorda e começa a questionar essa administração. E que nem mais as festas no estilo “pão e circo” conseguiriam manter o povo alienado. Então, aquele prefeito não conseguiria mais se reeleger. Não pode mais ser a “cara desta administração”. O que se faz? Escolhem alguém que eles estavam poupando do enfrentamento dos problemas e preservando-o dos comentários e críticas. Alguém que durante todo o tempo desse mandato assistiu a tudo de camarote e nunca fez nada para mudar os rumos dessa má-gestão da coisa pública).
“Mudar (a aparência) para que nada mude (na essência)!”
Como diz o nome do bloco, são farinha do mesmo saco. E administram a cidade como se fosse deles e para eles.

Curiosidade:

O comportamento dos foliões desse grupo é ligeiramente bipolar. É muito comum esse bloco do “Farinha do mesmo saco” se comportar exatamente igual ao bloco “Seis por meia dúzia” nos anos em que perdem as eleições. Voltando a mesma postura anterior quando voltar a ganhar a prefeitura.
Possibilidades de vitória:
Depende da consciência crítica do eleitor e da eleitora. Essa jogada de mudar a cara do candidato, optando por um candidato que vinha sendo blindado e protegido pelo grupo, sem deixa-lo se respingar em nenhum escândalo, e que tenha “boa aparência” e sorriso largo ainda é uma estratégia que consegue iludir muitos eleitores e muitas eleitoras.

Bloco “Seis por meia dúzia”
Definição:
É a outra grande força política do município. Com certeza já teve oportunidade de administrar o município. E assim como o bloco “farinha do mesmo saco” é reconhecido por uma má-administração municipal, e não é raro que em seu histórico tenha tido foliões do grupo já envolvidos com algum escândalo de corrupção ou condenação por má-gestão e improbidade.
Como representa outra oligarquia do município, reúne a outra metade de famílias ricas e em ascensão do município que vivem ávidas para retornar ao poder (leia-se voltar a ter os privilégios que tinham no passado, como usar a prefeitura como cabide de empregos e troca de favores) e dar o troco (leia-se perseguir e humilhar aqueles que hoje estão favorecidos pela administração atual).

Foliões:

São compostos majoritariamente pelas famílias ricas e aquelas que tiveram alguma ascensão durante o mandato em que estiveram no poder. Eram o primeiro escalão quando eram a então gestão eleita (na época prefeito, vice-prefeito, assessores, secretariado...), os então vereadores da situação, e empresários e coronéis de algum prestígio naquele município que ficaram de fora de bons negócios com a prefeitura desde que seu bloco perdeu as eleições.
A cada nova eleição eles costumam reunir-se para discutir se precisam mudar os seus candidatos, ou não.
Normalmente o escolhido entre eles é uma pessoa carismática que deverá representar a “cara que queremos dar a esta administração”. Deve ser alguém que não seja associado de maneira alguma à época em que estiveram no poder e cometeram as mesmas práticas de corrupção e favorecimento que a atual administração vem cometendo. Tem que ser alguém que consiga desviar a atenção dos eleitores e das eleitoras sobre o passado sujo do grupo. Tem que ser alguém com aparência oposta ao seu candidato anterior (por exemplo, se ele era jovem, esse tem que ser velho (e vice-versa); se ele era alto, esse tem que ser baixo (e vice-versa); etc.).
Escolhem dentro do grupo alguém que foi preservado das questões polêmicas do município todo esse tempo, para poder apresentar-se como alguém que preza pelo respeito e que tem moral para falar dos erros do bloco que está atualmente no poder.
“Mudar (a aparência) para que nada mude (na essência)!”
Como diz o nome do bloco, trocar o atual bloco “farinha do mesmo saco” por eles é o mesmo que trocar seis por meia-dúzia. O que muda é a oligarquia a ser favorecida, pois eles administram a cidade como se fosse deles e para eles, também.

Curiosidade:

O comportamento dos foliões desse grupo é ligeiramente bipolar. É muito comum esse bloco do “Seis por meia-dúzia” se comportar exatamente igual ao bloco “Farinha do mesmo saco” nos anos em que ganham as eleições. Voltando a mesma postura anterior quando voltar a perder a prefeitura.
Enquanto não ganham as eleições não se assuste se esse grupo, na hora de botar seu bloco na rua apelar pra festas populistas,no melhor estilo pão e circo, também.

Possibilidades de vitória:

Há dois fatores que pesam bastante, a favor, desse bloco:
Por ser um dos dois grandes grupos políticos da região, e por possuírem apoio também de empresariado local, possui muitos recursos para investir em campanha (fazer eventos e trocar “favores” com a população).
O total descrédito da população com a atual  gestão;
E também se favorecem da pouca memória do eleitor e da eleitora que esquecem rápido dos escândalos em que aquele bloco (e seus partidos políticos) e seus foliões estiveram envolvidos durante seus anos de mandato.

Bloco “Quem não chora não mama”
Definição:
Normalmente é composto pelo “segundo e terceiro escalão” da situação, ou seja, do bloco “farinha do mesmo saco”.
Por serem segundo e terceiro escalão, são considerados descartáveis por aquele bloco, e então, por terem perdido os privilégios que tinham antes, se revoltam e resolvem lançar candidaturas próprias.
Alegam bastante que “é preciso mudar”, mas a verdade é que eles não sabem fazer uma gestão diferente, pois sua escola sobre maneira de administrar foi o tempo em que estravam acompanhando e sendo coniventes com a má-administração do atual gestor.

Foliões:

Os seus representantes são bem diversos. Mas tem em comum que em algum momento da administração atual tiveram os benefícios típicos da corrupção velada. É aquela candidato que até alguns anos atrás tinha um parente empregado na quota do atual prefeito, ou tinha algum benefício na comunidade onde vive só por ser “amigo do homem”, ou podia usar alguns serviços públicos como se fosse privado, etc, mas que agora teve esses mimos todos cortados, sentem-se traídos. É esse sentimento de traição que os une.
Esse grupo é considerado transitório ou de passagem, pois é comum que os foliões desse bloco transitem para o bloco “Farinha do mesmo saco” ou “Seis por meia dúzia” a depender dos agrados oferecidos e prometidos.
Ou seja esses foliões, por não terem força suficiente (nem política, nem econômica nem moral), inventam de montar esse bloco pra chamar a atenção dos dois grandes blocos desse carnaval.
Até pouco tempo atrás estavam elogiando a atual gestão do bloco “Farinha do mesmo saco”, sempre ressaltando como essa administração é boa, a melhor que esse município já teve. Chegando a bater-boca e criar desafetos em defesa dessa atual administração.
Agora que foram descartados e montaram o bloco “Quem não chora não mama”, o discurso sofreu uma mudança de 180 graus, e o que era bom na boca deles passou a ser mau. Coerência política não é o forte desse grupo.
Em suma, não possuem projeto político algum para o município. E manifestam sua plataforma política apenas com ataques.

Curiosidade:

Por ser um bloco formado por foliões expulsos de outros blocos, sua heterogeneidade é enorme, e pode reunir pessoas que em outra situação jamais se uniriam.
Como eram de dentro do bloco “Farinha do mesmo saco”, sabem de alguns podres dessa administração, e só agora (que é oportuno pra eles) é que começam a divulgar essas informações. Querem aparecer como os reveladores da verdade, mas o povo não é besta, e se pergunta porque eles se mantivera calados sobre esses “podres” antes, dizendo que tudo estava bem nessa administração atual quando sabiam que não estava. Ou seja, porque optaram por omitir essa informação antes?
O que seus foliões sonham de verdade é poderem um dia serem do primeiro escalão em qualquer bloco que seja.

Possibilidades de vitória:

Normalmente é um grupo sem possibilidades de vitória para a majoritária. Pois nem eles mesmos acreditam que poderão ganhar um dia.
Mas, como ainda possuem alguns currais eleitorais, no aproximar-se das eleições, podem ser cobiçados para integrarem os outros blocos.
Podem eleger, graças a seus currais eleitorais, alguns vereadores. Oferta os seus votos de vereador para o candidato a prefeito dos outros dois blocos maiores.

Bloco da “Pipoca”
Definição:
É o grupo político que fica de fora da corda dos outros blocos por convicção e decisão próprias.
Reúne uma grande massa de pessoas e famílias que vivem do seu trabalho cotidiano. Não têm riquezas, posses, nem fazem parte das famílias tradicionais que dividem o poder da cidade entre elas. E nem querem ser assim.
É um bloco que não está descontente apenas com o grupo “A” ou o grupo “B”, mas sim com a forma de se fazer política no seu município. E sabem que não podem esperar nada de novo do embate entre esses grandes blocos.
Não sente confiança em blocos que sejam formados por expulsos dos grandes blocos, mas apesar disso mantem-se solidário com aqueles que dependiam desses empregos para sobreviver e agora estão desempregados. Acreditam que é possível acabar com esse uso indevido da máquina pública, com políticas de geração de emprego e renda que possam dar autonomia a essas pessoas. Defendem firmemente o fim do uso das prefeituras como cabide de empregos

Foliões:

Não tem vinculação com as oligarquias e grupos políticos dominantes da região. É formado por pessoas que aparecem como lideranças populares nos momentos de enfrentamento em defesa dos interesses coletivos, estando preocupados na organização popular pela luta por seus direitos.
Acredita que a política se faz para além das urnas, que deve ser feita no dia-a-dia.
Acredita que o exemplo é pedagógico, por isso procuram nortear sua prática sempre em respeito ao erário público e defesa de causas sociais.
Nega-se a receber favores políticos para não ter “rabo preso” e poder, com vigor moral condenar as práticas corruptas que possam aparecer entre os foliões de outros blocos.
São os que trabalham nas prefeituras, bem como no comércio, nas indústrias, etc., e fazem uso dos serviços públicos ofertados.
È aquele nosso colega da escola que indignado com a condição dos ônibus escolares que mais oferecem risco do que segurança aos estudantes, e questiona porque tem dinheiro pra aluguel de “carrão zero” pro prefeito e seus assessores usarem, mas não tem pra educação!
É aquele nosso companheiro de trabalho que indignado com a falta de luvas nos postinhos de saúde questiona porque tem dinheiro pra São João, mas não tem pra saúde.
É aquele pai e mãe de família que indignados com o aumento da violência nas ruas questionam porque não há projetos da prefeitura para melhor aproveitamento dos espaços públicos, como praças e centros, para entretenimento e formação dessa juventude.
Os que trabalham nas prefeituras são constantemente vítimas de assédio moral pelo bloco que está no poder. E os que trabalham fora das prefeituras, mas fazem uso dos serviços disponibilizados pela prefeitura, também reclamam de assédio moral nesses serviços, quando veem outras pessoas dos blocos dominantes fazendo uso privilegiado desses serviços que deveria ser igualitário.

Curiosidade

Os foliões desse bloco costumam organizar-se em movimentos, associações, sindicatos como necessidade para se defenderem dos ataques aos seus direitos (apesar de haver foliões dos blocos dominantes – os puxa-saco  infiltrados nessas entidades de luta popular).
Mas, por entenderem que os rumos que definem boa parte de suas vidas em sociedade passam pelas decisões políticas tomadas nas prefeituras e câmaras municipais, vêm se organizando para conquistarem essas espaços e poderem transformar essas instâncias em verdadeiros espaços de representatividade dos interesses do povo. Povo esse que é de onde esse bloco veio e que quer ver seu povo respeitado e com liberdade para definirem e influenciarem as políticas públicas.
Apesar de seus candidatos terem a cara que o povo tem. Sofrem com um mal ainda presente em nossa sociedade, em que o povo ainda tem receio de se verem nos espçaos de poder, e por isso preferem votar em políticos que tem a cara de “político profissional”.
Os candidatos desse grupo investem em conteúdo e não em aparência. Normalmente são os únicos que apresentam propostas reais e viáveis durante os debates, ao contrário dos outros blocos que apelam pra jargões e moralismo para ganhar a preferência nacional.

Possibilidades de vitória:

A expectativa em âmbito nacional para as eleições municipais é de que esse bloco nos surpreenda nas eleições desse ano de 2016.
Tem sido, historicamente, o bloco que chega perto, mas não consegue ganhar as eleições.
O povo quer o novo, mas ainda tem medo do novo. Em algumas situações é preferível ao povo apostar em algo que aparente ser novo, mas que lhes dê a segurança de nada mudar efetivamente, do que realmente apostar em algo que traga novidades não só na aparência, bem como na essência.
Mas, com o aumento do nível educacional e com o aumento de acesso a informações via internet (o que implica em aumento de eleitores e eleitoras mais críticos e conscientes), cada vez mais o povo tem sentido a necessidade de uma mudança verdadeira nesse ciclo vicioso entre os blocos “Farinha do mesmo saco” e “Seis por meia-dúzia”, e é possível que mesmo sem grandes recursos para fazer uma grande campanha, o alcance de suas propostas coerentes e gestadas no seio das necessidades populares possa nos trazer alguma surpresa, quer seja para as eleições majoritárias (prefeitura) e\ou proporcionais (câmara).
Esperemos por outubro. E, vamos brincar nesse carnaval eleitoral, mas com responsabilidade!
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